sábado, 4 de agosto de 2018

FILOSOFIA E EDUCAÇÃO DO CAMPO


Por Yago Itaparica.

O dia não era lá dos melhores. A seleção brasileira acabara de ser eliminada da Copa do Mundo de Futebol masculino. A ocasião pareceu triste, a noite, por sua vez, não hesitava de volta e meia derramar sobre nós um tanto de sua melancolia. Fria, cortava de súbito uma leve brisa que agitava cada corpo a se aquecer. A praça Lourival Monte guardava da chuva e do céu aberto, além de belas flores que escondiam sua beleza sob o véu noturno, à acolhida do coreto de vistas gregas, audacioso, o café mais deleitoso que Amargosa poderia ter em tão adversa situação, um café do pensamento, um Café Filosófico.

Em meio a uma atmosfera de quase silêncio, trabalháramos para montar a nossa estrutura. A feira da agricultura familiar, dirigida pela Cooama, uma cooperativa de trabalhadores do campo, lá estava, como toda sexta-feira, esteja o dia brilhando de estrelas, ou, como nesta ocasião, fechado de tênue esmorecimento. O ar gélido nos aconchegava, ponha em nossas bocas tons mais suaves; um mingau de milho que ali era vendido dava um sabor à nossa existência. Por ali vendia-se quase de tudo; tudo que fosse necessário, pelo menos. Como garrafas ornamentadas, essencial para pôr uma rosa, ou lanches vegetarianos, sem a dor da morte de um animal; que tal um beiju ou alimentos orgânicos gerados no âmago da terra trabalhada por mãos simples? Plantas? Tínhamos, necessaríssimas para dar vigor a nossos dias. Assim como a filosofia.

Esta, por sinal, ficara a cargo de um excêntrico professor, Marcelo Santana. Ele trabalha em uma Universidade na cidade de Feira de Santana, cidade da qual ele sempre fala com um certo ânimo contagiante. Eliene Silva, sempre sorridente e meiga nos toques, seria a debatedora dessa ocasião. Ajeitamos o local, que por sua vez ficou charmoso, claro, devido a um certo toque feminino, que fora dado por Eliene.

O público chegara aos poucos, como pede o tempo interiorano, sem pressa, sem alarde. Se punham em cena os personagens de nossa história, como uma peça teatral em que cada um soubesse onde se encontrar disposto. Fora bonito de se ver. A garoa tão pouco desanimou ou intimidara a freguesia, que embora não fosse excessiva, mas, deveras de qualidade inestimável.

O evento, a propósito, tinha por tema: Filosofia e Educação do Campo, quer mais sugestivo?! Tudo pronto, o espetáculo de Marcelo, ou melhor, seu show, como gosta de acentuar, iria começar. Mas não sem antes ter uma cultural com Tony Sales, artista, percussionista local, que ataca de cantor em esparsas situações. Compositor, trouxe-nos músicas suas, que falam dessa cidadezinha cravada no coração do Vale do Jiquiriçá, que tem por apelido Cidade Jardim, também chamada por aquele outro que faria seu show nessa noite, de Holanda brasileira.

Abro a noite e logo apresento o som peculiar de Tony, com palavras desconcertantes, afinal não esperava ser chamado a falar na abertura pela coordenadora do evento, Geovana Monteiro, me tomou de surpresa. Idealizadora do projeto, foi ela quem possibilitou estarmos experiênciando essa aventura com o saber. A noite seria agradável, de tom um tanto bucólico, as falas pontuais, o ritmo era sutil, o ambiente projetava acolhimento. Um café aqui, um papo ali, risadas acolá, livros sendo vendidos sobre uma mesa, era o sebo Charlie Brown, e seu dono corpulento e de fala mansa, Salvador. A tudo filmava Anderson, esposo da professora Geovana e apoiador nosso, ele foi o cara que ajudou a iluminar a festa e agora registrava-a. Eu, por sinal, acudia no que fosse preciso, sempre um tanto atordoado, afinal, nunca antes havia participado efetivamente da preparação de um evento.

Tudo ocorrera bem, até melhor do que o previsto, ou, pelo menos do que, eu, havia previsto. A palestra acontecera de forma formidável, houve participações do público, presenças ilustres de outros docentes do Centro de Formação de Professores, ao qual pertencemos, nós da organização, os habitantes da vizinhança, alunos, especialmente aqueles do curso de Educação do Campo.

Pude perceber que aquele fora um evento e um lugar especial, não é a toda hora que se fala em Filosofia e em Educação, sobretudo Educação do Campo, em praça pública como fizera Sócrates, levar conhecimento e reflexão para a rua é um ato de resistência. Nesse oceano de gente que é a nossa sociedade, tocando em assuntos tão pouco comentados, a não ser em espaços delimitados e encarcerados. Na rua, a palavra ganha vida, só ali o vento pode leva-la a novos horizontes, a novas mentes, a novos tons. Fazendo jus ao conhecimento, que deve ser vivo, que deve transformar, criar. Esse que não deve se fechar em paredes de concreto bruto, esse que não deve se enrijecer. Deveria ele ser um pássaro solto, que voa, voa, para além das nossas fronteiras, sempre buscando a luz de um pôr do sol, tarefa infindável, para que em um breve momento de descanso, ou de lucidez, pouse em um galho de árvore, aninhando-se, e saiba apreciar a arguta beleza amarga da vida.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

“5 ATOS” DA ACT OF REVENGE


Por Anderson L. Souza

Faz certo tempo que não faço parte de uma banda, quer seja própria ou mesmo como convidado. O último projeto musical que montei, com seriedade, foi uma banda chamada Harzoth, ainda quando vivia em Salvador. Com minha facilidade para fazer amizade com bateristas, conheci Bruno “Próspero” Tavares. Minha conexão com Bruno, além de musical, era muito pelo fato de pensarmos em fazer tudo que tivesse que ser feito pela banda, de modo profissional. Percebo que nossos pensamentos em relação a qualquer tipo de trabalho que envolva a música, pelo menos, permanecem intactos. Seriedade, organização e empenho para conduzir o som e a imagem do projeto da melhor maneira possível parecem ser imprescindíveis para se obter um bom resultado, com a aceitação de determinado público e mídias especializadas.

Lembrei de Bruno e de como ele é um ótimo baterista. Dedicado e criativo, as criações dele para a bateria são executadas com precisão e velocidade respeitáveis.  Além de excelente músico, tem um bom tino para gerenciar as produções da banda. Digo tudo isso porque tenho acompanhado a trajetória da Act of Revenge, banda que Bruno criou em 2008, logo após desligarmos a Harzoth. Em 2009 apresentaram ao público nas plataformas digitais as músicas “Believe” e “Peace of Mind”, incluídas no instigante álbum de estréia “No More Suffering”, de 2015. Mais recentemente tive o prazer de assistir ao clipe oficial da música “Verme”, single do novo EP “5 Atos”, que a Act of Revenge pretende lançar no dia 09 de julho de 2018. Com produção de alto nível da própria banda, a edição e a direção geral ficam por conta de Douglas Mendes (Sense Films). Assim, pude reafirmar tudo o que expus sobre o modus operandi do meu velho amigo.

É possível assistir a um minidocumentário dividido em 4 capítulos em que toda a banda fala sobre o período em que passaram um ano e meio longe dos palcos para se reestruturar, a nova formação (apresentando no baixo Icaro Arthur, ex-guitarrista da Artefacto), composições (onde expõem as influências, as intenções dos arranjos e os motivos  que os levaram a cantar em português) e o conceito do EP (aqui falam sobre o direcionamento das músicas e sobre as mensagens de cada letra).

Bom, posso adiantar que a Act Of Revenge hoje é formada por Bruno Próspero (Bateria), Danfacto Oliveira (Vocal), Ismar Mendes (Guitarra) e Icaro Artur (Baixo). O novo EP traz as faixas: Ato 0 – Intro, Ato 1 – Apocalipse, Ato 2 – Verme, Ato 3 – Guardião Eterno, Ato 4 – Ameaça Oculta e Ato 5 – Religiosos Insanos. Cada uma delas representada por temas e ideias relacionadas a ato de vingança, purificação, arrependimento, proteção, despertar e blasfêmia, respectivamente, segundo a própria banda.

Em seus dez anos de existência a Act of Revenge tem grande prestígio na cena alternativa soteropolitana. Atuante em cinco edições do Palco do Rock, um dos maiores festivais do gênero na Bahia, a banda tem atraído para seus shows muitos adeptos de música pesada pelo nordeste a fora. Bruno e sua trupe demonstram que não se abatem pelas dificuldades e continuam encarando a música com prioridade e competência. Aguardem novidades da banda com os seus “5 Atos” e confiram “Verme”, primeira pedrada sonora da Act of Revenge desse ano.



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quarta-feira, 20 de junho de 2018

A IDEAÇÃO COM O DOSSIÊ BERGSON


Por Anderson L. Souza

O conhecimento e a aprendizagem talvez sejam a base para o desenvolvimento humano. E a leitura parece ser um dos meios mais fáceis e prazerosos para se conhecer, aprender e desenvolver a si próprio e o meio em que vivemos. Por isso não poderia deixar de sinalizar sobre a publicação de um material que só tem a contribuir com o crescimento intelectual de todos.

O filósofo francês Henri Bergson é o foco da atual edição da Revista Ideação (N. 37, Janeiro/Junho 2018). Organizado pela Prof.ª Dr.ª Geovana da Paz Monteiro, o Dossiê Henri Bergson traz uma seleção de textos compostos por pesquisadores que apresentam distintas áreas do conhecimento em diálogo com os diversos temas que compõem o pensamento bergsoniano.

Entre eles estão algumas personas que conheci em meu discreto e extra-oficial contato com o mundo filosófico, como é o caso da Prof.ª Dr.ª Débora Cristina Morato Pinto, importante nome na filosofia do Brasil. Da Universidade de Coimbra, o Prof. Dr. Luís António Umbelino. O querido Prof. Dr. Gilfranco Lucena dos Santos, antes parte do corpo docente do Centro de Formação de Professores da UFRB e agora na UFPB. E da própria Prof.ª Dr.ª Geovana da Paz Monteiro que coordena, apresenta e também reflete sobre uma das obras de Bergson. Há outras interessantes contribuições tais como as do Prof. Dr. Pablo Enrique Abraham Zunino, Prof. Dr. Fernando Meireles Monegalha Henriques, Prof. Me. Adeílson Lobato Vilhena, mestrando Yves Marcel de Oliveira São Paulo, Prof. Me. Paulo Deimison Brito dos Santos, Prof.ª Dr.ª Tatiana Cristina dos Santos de Araújo.

Ainda sobre a perspectiva das ideias do filósofo francês, duas traduções são publicadas neste dossiê. A primeira, elaborada pelo Prof. Me. José Paulo Maldonado de Souza (UFPB/BR), traz uma entrevista concedida por Bergson em 1914 ao Le Journal, de Paris, e a segunda desenvolvida por Yasmin Haddad, do livro “Do Hábito”, do mestre e influenciador filosófico de Bergson, Félix Ravaisson.

Com um conselho editorial de peso (nacional e internacional) e um comitê editorial competente, a revista Ideação tem o Prof. Dr. Laurenio Leite Sombra a frente das publicações como editor-chefe.Aconceituada revista, que está vinculadaao Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Filosofia (NEF) / Departamento de Ciências Humanas e Filosofia (DCHF) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), semestralmente nos apresenta conteúdos de relevância filosófica de modo gratuito. Infelizmente, devido à crise orçamentária, já notória em todo país, desta vez, não se encontra disponível o formato impresso, limitando-seapenas à versão on-line.

Eis aqui uma ótima oportunidade de conhecer e se aprofundar no pensamento desse filósofo que contribui para um fluido conhecimento da história da filosofia e das ciências, desembocando então em algo mais amplo, como um possível entendimento sobre a duração, ponto culminante de toda sua filosofia.

terça-feira, 12 de junho de 2018

MÚSICOS DE AMARGOSA: EP. 2 – DIEGO MORAES

Por Anderson L. Souza

Apesar das dificuldades de produzir sozinho qualquer conteúdo audiovisual, eis aqui o segundo episódio da série “Músicos de Amargosa”, desta vez com o virtuose na guitarra Diego Moraes.

Diego, velho conhecido da época do já extinto Café e Cultura, é um grande representante da música produzida em Amargosa. Mesmo com nítidas predileções pelo rock, versa habilidades por diversos estilos musicais, com parcerias e colaborações significativas para música da cidade.
 

Nesse registro, nosso habilidoso guitarrista faz um interessante depoimento sobre sua relação com a música desde a adolescência até os dias atuais. Relatando sua introdução ao meio musical, bandas e projetos, a cena local e sua perspectiva para o futuro da música em terras amargosenses e em todo país.

Acompanhe no vídeo abaixo, gerido mais uma vez pela New Brutality Produções e apresentado por nosso blog, uma descontraída e emocionante entrevista com o excelente músico Diego Moraes.



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